Resenha: Só sei que não vou por aí


Alvaro

Em primeiro lugar, eu sou nerd. E isso fez que eu criasse uma atmosfera nerd dentro de casa. Sempre houve muitos livros de assuntos que abrangem da culinária à ficção científica, espalhados, para desgosto de minha esposa, do banheiro à casinha do cachorro (que literalmente devora livros). E tenho três filhos e os três são nerds, com carteirinha e tudo.

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Só sei que não vou por aí
Autor: H. V. Flory
Editora: GRD
Ano: 1989
146 páginas

Sinopse: Coletânea de 13 contos de ficção científica do autor, com diversos temas.

Resolvi ler este livro, em busca de conhecer um pouco mais sobre a segunda onda da Ficção científica Brasileira, que teve uma safra de bons autores. Alguns continuam produzindo outros desapareceram na poeira do tempo, como é o caso de Flory.

Eu esperava algo de qualidade e foi o que encontrei. Os contos são bem escritos e com uma trama bem desenhada a maioria deles com um desfecho que surpreende de alguma forma o leitor.

O livro começa pelo conto “Sozinho”, donde um homem vive a paranóia de achar que todas as máquinas do planeta estão contra ele, do seu computador pessoal ao cortador de grama. O personagem é muito bem caracterizado, bem como a sua suposta paranóia, que o faz duvidar até de humanos.

O conto seguinte é “Long Dong”, que brinca com a preocupação doentia em relação ao desempenho sexual.

“O consertador” faz um paralelo entre os vírus de computador e o vírus da AIDS, numa conversa entre um técnico de informática e uma cientista que pesquisa sobre a doença. Aliás, a AIDS é um tema recorrente para ou autor, que escrevia num momento em que a doença estava em plena evidência na mídia. O interessante deste conto é que o autor prevê com certa precisão o desenvolvimento dos vírus de computador e as maneiras de combatê-los. O humor é bastante presente.

“A aristocracia eletrônica” retoma o tema da AIDS, descrevendo uma sociedade baseada em castas em relação à possibilidade de contaminação e a tentativa de um artista que ousa romper as regras de segregação.

“A Neoescravocracia advinda” nos coloca diante de um mundo hedonista onde escravos eletrônicos fazem tudo o que desejamos. O que nos resta? O tédio.

Em “Abraxas”, um engenheiro sofre um acidente é lançado ao espaço e enquanto aguarda o resgate em condições adversas medita sobre as duas formas que estão sendo realizadas para retirar energia do espaço: uma baseada na luz, que extraia energia de sóis e outra, baseada nas trevas, que extraia energia de um buraco negro. Por estar girando velozmente, vendo ora luz ora treva pensa na divindade que seria a união de ambos, Abraxas. O final é profundamente irônico, outra marca dos textos de Flory.

O conto que dá nome à coletânea é “Só sei que não vou por aí”, onde o direito de escolha do modo de viver ou morrer é posto em xeque, bem como a noção de liberdade e evolução.

“Cíntia” volta a mexer com valores de escolha. Se todos seguem a mesma direção, não significa que eu deva seguir, ainda que todos pareçam felizes.

Em “Ícaro” o tema da liberdade a qualquer preço também está presente. Voar como os pássaros sob o sol é um sonho dourado. A não ser que o sol possa te matar, numa Terra onde não há mais nenhuma proteção aos raios ultravioletas.

Em Big Ben, Flory brinca de maneira muito inteligente com o doping esportivo e o episódio de Ben Johnson nas olimpíadas de Seul. Cem anos depois, outro caso controverso está prestes a acontecer. Muito bem humorado.

“O leito de Procusto” resgata o mito do gigante que fazia com que os viajantes deitassem num leito. Se fossem menores que a cama, ele os esticava. Se maiores ele cortava as pernas na medida correta. Absurdo? Quantos não fazem isso com ideologias…

O conto “Invasores?” retoma o mesmo cenário desolado de “Ícaro”. O homem vive agora no espaço, colonizando outros mundos. A Terra envenenada pelos raios ultravioleta é deixada pra os incapazes e os teimosos. Este é o caso de Cunnigans, curiosamente um exobiologista, que adota o ponto de vista da pan-espermia. Após anos de isolamento ele é requisitado pra uma missão de extrema importância, que pode revelar que ele está certo ou, de acordo coma paranóia dos militares no comando, que está ocorrendo uma invasão. Outro conto com um final carregado de ironia.

Fechando a coletânea está “Amigos”. Basicamente o conto responde com humor e ironia à pergunta: será que somos os únicos na Terra a ser inteligentes?

Todos os contos são bons e alguns excelentes. Destaco como os melhores “Abraxas” e “Só sei que não vou por aí”, por tocarem questões fundamentais dentro de bons enredos. Duas obras primas!